DESABAFO

Você me disse: Escreve!!!

Que tenho pra contar?

qual a minha filosofia?

de onde vim?

onde estou?

pra onde vou?

Fim de ano.

Mais um se foi,

e, na balança do tempo,

meu prato está vazio.

Debaixo desta capa

que você conhece,

nem eu mesma me conheço.

Me sinto velha,

alquebrada,

mergulhando fundo

num poço sem fim

de pessimismo,

de miséria,

e de perguntas sem resposta.

Sou uma carta que se perdeu

pelos correios do mundo:

um parasita que suga

e mesmo assim definha:

um telefone sem fio

e que não se comunica.

Me afundo em meus próprios passos,

presa de minha própria apatia.

Sabe o que é chorar

dobrada sobre si mesma

olhando os destroços de algo

que não se soube construir?

Sabe o que é vegetar, vagar

empurrada

pelas horas mal vividas?

Estou só

perdida no mundo,

buscando algo nunca encontrado.

Alheia...  isto, estou alheia.

Sou um robô sem corda,

sem computador,

sem alicerce.

Vago. E vale a pena vagar?

Será que ainda tenho alma?

que fiz de mim?

Qual o papel que eu não soube decorar?

Falhei, eu sou a nota falsa

num concerto que deveria ser maravilhoso.

Megera, sem estrutura, sem rumo.

Megera de mim mesma e dos meus.

Sou a solução química que corrói,

a maré que avassala.

Escrever para dizer isto?...

Dizer que a máscara

já não se amolda à cara?

A fantasia já não entra mais?

Em que carnaval do mundo me perdi?

Transmitir a você o germe da minha revolta,

o vírus da minha doença?

Sempre achei que toda pessoa

tem o dever de fazer

de seus dias uma certeza,

de seus passos um caminho.

Sempre achei e, no entanto,

não é o que faço.

Portanto me calo,

me enrosco sobre minha incapacidade,

e me escondo.

Se não tenho nada de positivo a transmitir

não posso deixar nenhuma herança,

passei pela vida e não vivi.

Não falei, não escrevi

porque não tinha nada a dizer.

 

Obs: Se souber a autoria, por favor entre em contato.