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ESPÍRITO
SANTO: O DOM MAIOR DE DEUS E DE JESUS
A
semana que passou, estivemos preparando-nos
para a grande festa de Pentecostes, que era
a segunda maior festa para os Judeus, e para
a nossa Igreja também é uma das mais
importantes, sendo o início da difusão o
Igreja de Cristo “desde a Judéia e
Samaria até os extremos confins do
mundo pela força do Espírito Santo”
(Atos 1,8).
A
comunidade primitiva se compunha de em torno
de 120 pessoas, que se reuniu na casa de João
Marcos, com certo receio e expectativa do que
iria acontecer. Aguardavam o que Jesus
prometera ao subir aos céus: a vinda visível,
palpável, do Espírito Santo. Lá estavam os
Apóstolos, Pedro e os demais, lá estava
Nossa Senhora, Mãe de Jesus, expressamente
nomeada no primeiro capítulo dos Atos, lá se
encontrava, enfim, a comunidade originária
dos primeiros seguidores de Cristo.
O
que se diz deles, é que “eram um só
coração e uma só alma e unânimes em oração”.
Pedro, durante este período, já cuidou de
exercer a sua função primacial, o de chefe
do grupo dos Apóstolos e, portanto, também
da Igreja iniciante, fazendo eleger o
substituto de Judas Iscariotes, o traidor. Foi
eleito Matias, um dos grandes Apóstolos, que
imediatamente, foi associado ao grupo dos
doze. Essa beleza da eleição de Matias, nos
é narrada logo no primeiro capítulo dos Atos
dos Apóstolos e mostra a dinamicidade, o modo
de proceder da primitiva comunidade. Pouco
mudou até hoje. Praticamente, se conserva a
mesma sistemática: a comunidade aponta
elementos, reza-se muito, escolhe-se, vota-se
e finalmente a pessoa é integrada nesse colégio
apostólico.
O
dia de Pentecostes: Pela manhã,
escutou-se um enorme barulho, como nos dizem
os Atos dos Apóstolos, uma ventania forte e
dentro da sala onde estavam aquelas 120
pessoas “desceram como que chamas de
fogo, pousando sobre a cabeça de cada
um”. Esse era o símbolo da presença do
Espírito Santo neles, da transformação
completa de todos os que estavam lá. Desce o
Espírito Santo, que Jesus anunciara. Foi Ele
que nos apresentou, tanto o Pai, bem como a
figura, a Pessoa divina do Espírito Santo: Mestre,
Consolador, Advogado, Espírito da verdade,
Companheiro, glória de Cristo, Doador da Paz
e do Perdão.
Recebemos,
naquela oportunidade, o Espírito Santo, o dom
maior do Pai e de Jesus, que começa a agir
dentro de cada pessoa e, através dela, nas
comunidades. Uma das primeiras maravilhas
operadas foi a transformação nos próprios
Apóstolos: de medrosos, covardes, tímidos,
desajeitados, se tornaram os grandes heróis,
as pilastras sobre as quais se fundou a Igreja
de Cristo, “nascida do lado aberto de
Cristo na Cruz e agora difundida pelo Espírito
Santo por toda a terra”.
Dom
do Pai, dom de Jesus Cristo que se derrama, se
difunde no coração, na vida, no ser de cada
um daqueles que estavam presentes no Cenáculo.
Vinha como vento forte, mostrando essa
transformação, quase total. Como fogo
fazia os participantes falarem línguas
diferentes, línguas novas. Eu creio que, sem
forçar o texto, poderíamos dizer, que era a nova
língua da Igreja, a língua do amor, da
fraternidade, da novidade do próprio
Evangelho.
Nós,
hoje, recebemos o Espírito Santo nos diversos
Sacramentos, de modo particular no batismo, no
Sacramento do testemunho ou confirmação,
no Sacramento da ordem. Ele irradia em nós a
vida divina em todo o ser, a vida divina passa
a comandar as nossas ações cristãs, ações
evangélicas e apostólicas que transformam o
mundo e a história.
Tornamo-nos
filhos da luz, como frutos do Amor
Pessoal de Deus, diz a própria Sagrada
Escritura. Tornamo-nos “ novos
filhos do amor” e assim a nossa atuação
deverá ser de acordo com essa nova luz e não
como trevas, ardentes de amor, sem discórdias
ou desuniões.
Aparece
o Espírito Santo na forma de vento,
como ar, aragem suave... O Espírito Santo não
apareceu visivelmente como Pessoa, (como também
nunca vimos a pessoa do Pai), mas nos foram
apresentadas por Jesus em forma de símbolos e
imagens. O ar é elemento vital, oxigênio da
nossa própria vida espiritual, mostra essa
vitalidade, essa dinâmica de nosso proceder
cristão. Como vento forte, ele varre tudo que
se opõe ao Evangelho, apregoado por
Jesus. Por isso acontecem as transformações
radicais, conversões profundas: Pedro,
medroso, começa a falar e fala num discurso
de causar inveja a qualquer pregador, ainda
hoje, convertendo até cinco mil pessoas no
primeiro discurso. Ele, o vento, remexe, varre
tudo que não presta, limpa, purifica o
interior das pessoas e, ainda, esse mesmo
vento também, às vezes, se apresenta como ar
muito suave, aragem, viração bem serena.
Isso demonstra uma outra dimensão da ação
do Espírito Santo em nós, a ação tranqüila
dessa vida, divina que vive em nós. A ação
serena, tranqüila, cheia de paz, ação da
alegria, ação quase imperceptível. Ele
comanda todo o edifício de Deus em nós.
Ele
aparece em nós sob forma de fogo, sob forma
de língua ardente. Todos sabem a utilidade do
fogo e sabem até que, historicamente, recorda
uma evolução na cultura dos povos. O fogo
transforma como um elemento de alta potência
para modificar quaisquer objetos, quaisquer
matérias, quaisquer pessoas.
Assim
nós temos, a partir da vinda do Espírito
Santo, o testemunho dos Apóstolos, o
testemunho dos primeiros santos. Poderíamos
citar Santo Estevão, transformado de tal
forma que se torna o primeiro mártir cristão.
Fala em nome de Deus, fala em nome da Igreja,
com o ardor do Espírito Santo em seu íntimo.
Jesus,
um pouco antes de morrer, ao se reunir com os
Apóstolos no Cenáculo, insistiu sobre muitos
pontos, falando do Espírito Santo. Ele alia a
ação do Espírito Santo à união que
deveria reinar entre os discípulos e
em toda a Igreja, em todo mundo. É
união profunda que se compara à união do
Pai, do Espírito Santo, e de Cristo, na
Trindade. Essa união pela qual nós oramos
hoje no ecumenismo, nos encontros de nossas
comunidades, é o elemento que sem a graça,
sem a ação do Espírito Santo, não
conseguimos alcançar. O que mais estraga a
história é a dispersão, é o desencontro
das pessoas e dos povos. O Espírito Santo
propicia a união de todos nós, união que só
quem a possui e sente pode aquilatar: quanto
ela vale e significa para cada um de nós e
para as comunidades cristãs.
Ainda
falando do Espírito Santo, Jesus diz: “Eu
não vou deixar vocês órfãos, ou sem ninguém.
Eu vou lhes mandar um companheiro, que vai
acompanhá-los em toda a trajetória, em toda
caminhada de suas vidas”. Assim, o Espírito
Santo se torna companheiro de caminhada, se
torna nosso assessor, nosso guia espiritual e
cicerone: nas vias novas do acontecer vital.
Ele
é Mestre: ensina todas as coisas em um novo
estilo, em nova modalidade. Assim os Apóstolos
tiveram coragem e nós ainda temos coragem
hoje de falar pela Igreja, em nome dela; falar
pela força do próprio Evangelho, porque o
Espírito Santo é que nos dá essa maestria
que procede da sua íntima união conosco.
O
nosso grande Mestre, o nosso grande professor,
o nosso grande pedagogo que nos
conduz, até pedagogicamente, na exposição,
no aprofundamento da evangelização nas
diversas culturas, com a arte das adaptações
de inculturação, enfim, com todo aquele espírito
missionário que é preciso ter, quando se
quer anunciar o Evangelho em épocas e
lugares diferentes.
O
Espírito Santo é nosso advogado, diz
Jesus, chamado de paráclito, aquele
que está do lado, que é assistente e que, ao
mesmo tempo, nos aconselha, que nos previne e
nos faz dar testemunho: na hora certa, do
jeito certo, nos tribunais, nos nossos
trabalhos, nos depoimentos de tudo aquilo que
diz respeito à obra da evangelização na
Igreja de Cristo.
Todos
os lados positivos da nossa vida, são
marcados pela ação do Espírito Santo.
Quando nos encontramos na luz, saindo das
trevas, é obra do Espírito Santo; quando nos
encontramos na certeza, desviamos do erro e
dos equívocos; quando estamos na fortaleza
contra todo temor, enfrentando o temor,
a falta de impulso para enfrentar novas situações.
Nas alegrias que sentimos, o Espírito se opõe
à tristeza; a paz que o Espírito Santo nos dá,
se opõe à angustia que tantos sentem hoje,
especialmente, nesse mundo pós-moderno. O Espírito
Santo é alegria, é festa, é presença de um
amor especial: o amor do Pai e do Filho,
atuando em nós como amor criativo, inventivo
inspirado e inspirador.
Pedimos
ao Espírito Santo “Vinde, Espírito
Santo”, (é sinal de que Ele ainda não está
como deveria estar) – Vinde Espírito Santo,
enchei os corações de vossos fiéis
e renovai: é preciso renovar a face da
terra, é preciso preencher-nos
do seu amor e de todos os seus valores e de
sua força vital. Vinde, Espírito Santo, nós
agradecemos a vossa presença constante em nós
e esperamos nunca perdê-la!
D.
EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo
da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Fonte
:
Rainha da Paz
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