(Guerra) Moleques e Marimbondos

            


Éramos 20 meninos e jogávamos futebol, depois de uma aula de catequese. Eu tinha dez anos. Um dos meninos, o Jorjão que nunca engolia desaforo, foi picado por um marimbondo terrorista que aparecera não se sabe de onde. Urrou de dor. A gente sentiu pena dele, mas não sabia o que fazer. Voltamos ao jogo. Ele não! Aquilo não iria ficar assim! Decidiu caçar os companheiros do marimbondo que o atacara, para que não atacassem mais ninguém. Pensou em si e em nós que não víamos o perigo que ele via. Afinal o ferrado fora ele...



    Procurou e achou. Pediu que fôssemos com ele destruir aquela casa de marimbondos. Dois ou três colegas foram. A maioria não foi. Lembrado do episódio de um menino que provocou os maribondos e acabou no hospital, e da recomendação de minha mãe para que eu que não atirasse pedras em casa dos marimbondos, porque eles se defendem e se vingam, não fui. Ainda me lembro de ter gritado: - Jorjão, não mexa com os que estão quietos! - Mas a raiva dele era enorme. Os quatro atacaram com pedras e paus e mísseis com fogo na ponta. A intenção era queimar o seu esconderijo. E daí se queimassem as flores e os frutos? Azar dos passarinhos e das borboletas que estivessem na área de tiro!



    Ao invés de um, centenas, acho até que milhares de marimbondos declararam guerra a todos os que estavam no campo. Indistintamente crianças, pais, mães, padre, todo mundo teve que fugir porque, não sendo cristãos, pouco se lhes importava que tivéssemos saído de uma aula sobre Jesus e sua bondade. Um dos nossos fora lá destruí-los por causa de um deles que viera picá-lo. Fui picado na orelha. Vários de nós acabamos no pronto socorro.



    Leio as notícias da guerra EUA e Iraque e não escapo à tentação de lembrar o "11 de setembro", Bush, Bin Laden, Afeganistão e, agora, Iraque. Havia e há lá, milhões de muçulmanos que nunca fizeram nem jamais fariam nada contra nós, porque também eram contra a ira de Bin Laden. Agora que alguém foi lá por fogo na sua casa, seria muita bondade deles se não se vingassem. Que punissem o marimbondo que os picaram e os foram com ele. Mas ir lá provocar todos os demais, é coisa de quem não aceita desaforo. Bem que a gente avisou o Jorjão, que se armara para a vingança, mas ele não quis ouvir. Agora, por causa do Jorjão que foi lá destruir a casa dos marimbondos teremos milhares de marimbondos rondando a nossa. De fato foi como disse o Jorjão. A coisa não ficou assim! Ficou pior! O pai do Jorjão devia ter ensinado a ele que os marimbondos também caçam seus caçadores!


 

Fonte: Padre Zezinho

São Paulo (SP), 8/4/2003 - 09:02